quarta-feira, 29 de junho de 2011

As palavras...







As palavras são boas. As palavras são más. As
palavras ofendem. As palavras pedem desculpas.
As palavras queimam. As palavras acariciam.
As palavras são dadas, trocadas, oferecidas,
vendidas e inventadas. As palavras estão ausentes.
Algumas palavras sugam-nos, não nos largam…
As palavras aconselham, sugerem, insinuam,
ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas
ou azedas. O mundo gira sobre palavras lubrificadas
com óleo de paciência. Os cérebros estão cheios
de palavras que vivem em boa paz com as suas
contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o
contrário do que pensam, julgando pensar o
que fazem. Há muitas palavras. E há os
discursos, que são palavras encostadas
umas às outras, em equilíbrio instável graças
a uma precária sintaxe, até ao prego final do
Disse ou Tenho dito. Com discursos se comemora,
se inaugura, se abrem e fecham sessões, se
lançam cortinas de fumo ou dispõem bambinelas
de veludo. São brindes, orações, palestras e
conferências. Pelos discursos se transmitem
louvores, agradecimentos, programas e fantasias. E
depois as palavras dos discursos aparecem deitadas
em papéis, são pintadas de tinta de impressão – e por
essa via entram na imortalidade do Verbo. E as palavras
escorrem tão fluidas como o
“precioso líquido”. Escorrem interminavelmente,
alagam o chão, sobem aos joelhos,
chegam à cintura, aos ombros, ao pescoço.
É o dilúvio universal, um coro desafinado
que jorra de milhões de bocas. A terra segue o seu
caminho envolta num clamor de loucos, aos gritos,
aos uivos, envoltos também num murmúrio manso,
represo e conciliador… E tudo isso atordoa as estrelas
e perturba as comunicações, como as tempestades
solares. Porque as palavras deixaram de comunicar.
Cada palavra é dita para que se não ouça outra
palavra. A palavra, mesmo quando não afirma,
afirma-se. A palavra não responde nem pergunta:
amassa. A palavra é a erva fresca e verde
que cobre os dentes do pântano. A palavra é poeira
nos olhos e olhos furados. A palavra não mostra.
A palavra disfarça. Daí que seja urgente moldar
as palavras para que a sementeira se mude em
seara. Daí que as palavras sejam instrumento
de morte – ou de salvação. Daí que a palavra só valha
o que valer o silêncio do acto. Há também o silêncio.
O silêncio, por definição, é o que não se ouve.
O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa.
O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil,
o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar.
Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras.
As palavras boas e as más. O trigo e o joio.
Mas só o trigo dá pão.
(José Saramago)

domingo, 26 de junho de 2011

"O papel. Qual papel?"


O check-up bienal na empresa onde trabalho evita que pouco recorra ao médico de clínica geral. Um relatório para uma determinada especialidade obriga-me a ir a uma consulta. “Que chatice!”, pensei. Ainda por cima a médica habitual, uma senhora afável e disponível para tudo, já não  presta serviço lá,  pelo que teria que ir a um desconhecido.
O médico desconhecido acolhe-me e eu resolvo atirar de chofre a razão que me leva ali: um “papel” (ehehee) que me obrigam a levar para ter acesso àquela especialidade. Coisa de pouca importância. Uma formalidade!
O medico olha fixamente para mim e  reclina-se na cadeira.
“Acha que lhe vou fazer um relatório de uma coisa que desconheço?”. Pois… pensei eu, demasiado optimista… “Para lhe explicar qual a razão do relatório preciso de algum tempo, doutor” digo eu,  a pensar nas três pessoas que já esperavam quando eu entrei e não só!
“Sou todo ouvidos, diz-me com um sorriso”. Seguiu-se uma conversa de uma hora sobre tudo e mais alguma coisa com momentos sérios e momentos de verdadeira “galhofa”que incluiu conselhos,  futebol, experiencias de vida e  profundidade. Estranho, não? Pois. Até para mim. Despede-se  com um aperto de mão forte e levanta-se para me acompanhar à porta. Respiro fundo mal a porta se fecha. Saio arrasado com o papel na mão.Já na  rua olho para o envelope fechado como se a minha vida estivesse ali encerrada.Papeis...

"Levanta-te e anda"

Por mais vezes que tropeces,
Por mais vezes que caias,
Por mais vezes que vejas o sol onde só existe escuridão,
A tua sina é levantares-te e caminhares.
Mesmo que o teu sangue marque a calçada...

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Deixai-os vir a mim, os que lidaram; 
Deixai-os vir a mim, os que padecem; 
E os que cheios de mágoa e tédio encaram 
As próprias obras vãs, de que escarnecem... 

Em mim, os Sofrimentos que não saram, 
Paixão, Dúvida e Mal, se desvanecem. 
As torrentes da Dor, que nunca param, 
Como num mar, em mim desaparecem. - 

Assim a Morte diz. Verbo velado, 
Silencioso intérprete sagrado 
Das cousas invisíveis, muda e fria, 

É, na sua mudez, mais retumbante 
Que o clamoroso mar; mais rutilante, 
Na sua noite, do que a luz do dia. 

Antero de Quental

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Olhares sobre a Cróacia...

Ver crianças de sete anos ou oito anos a brincar com armas foi das coisas que mais me chocou na Croácia. Presumo que o facto de este país ter estado em guerra há apenas vinte anos seja uma razão mas… é triste ver uma criança com uma arma do seu tamanho  a fazer o gesto de disparar sobre outra.
Ver o condutor do autocarro a falar ao telemóvel , constantemente, enquanto conduzia numa estrada cheia de curvas foi outro comportamento estranho…Confesso que me senti pouco confortável.
O caos urbanístico nas localidades (com excepção dos centros históricos) é enorme. Muitas casas estão só meio construídas e já estão habitadas. E não estamos a falar apenas de vivendas. Prédios de três e quatro andares também. Parece que os croatas têm pressa de ir viver para as suas casas ..na verdade quem não tem?   Segue-se o lema de "as coisas vão-se fazendo", julgo. Politicas urbanisticas não devem ser preocupação. Cada um constroi como quer e lhe apetece.É pena.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Trova do tempo que passa

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que eu morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio – é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi a minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi a minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
Liberdade quatro sílabas
Não sabem ler, é verdade
aqueles para quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

[Manuel Alegre]

Rostos Croatas...